"Que sucede então no seio desses conselhos onde reinam a inveja, a vaidade e o interessa? Intenta, alguém, apoiar uma opinião razoável na história dos tempos passados, ou nos costumes dos outros países? Os outros se mostram surpresos e transtornados; e com o amor-próprio alarmado como se fossem perder a reputação de sábios e passar por imbecis. Eles quebram a cabeça até encontrar um argumento contraditório, e se a memória e a lógica lhes mingua, entrincheiram-se neste lugar comum: ‘nosso pais assim pensaram e assim fizeram; ah! Queira Deus que igualemos a sabedoria de nossos pais’! Depois se assentam pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo" (Thomas Morus, A Utopia - Século XVI)
Escrevo este texto ouvindo a sessão da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar em que depõe o deputado federal Roberto Jefferson.
Toda criança no Brasil aprende a falar papai, mamãe. Toda criança escolhe um time de futebol quando tem uns sete ou oito anos mais ou menos. Enfim, as crianças todas no Brasil aprendem muitas coisas e as mais importantes delas são que o “você é o futuro do Brasil” e “Brasil é o país do futuro”.
O que se esquecem de nos dizer é que o brasileiro por natureza é corrupto, na verdade, o ser humano por natureza é corrupto. Está, me perdoem os biólogos e afins, na composição genética do ser humano. Mas o que me interessa aqui são os brasileiros – já que eu não me interesso tanto assim pelo destino de outros povos.
Todo – veja bem, todo – homem tem seu preço. E eu não estou falando somente em dinheiro, eu não seria tão pouco imaginativo. Em nós, brasileiros, isso é muito mais natural, muito mais gingado. O que é o jeitinho brasileiro se não o embrião corruptor que existe dentro de cada um de nós? O estudante não consegue tirar a nota para ser aprovado, mas conversa com o professor e o professor dá um jeitinho; o empresário não consegue pagar seus impostos, mas se dá um jeitinho; a mussarela da pizzaria venceu, mas só faz dois dias, ninguém vai morrer, pra tudo se dá um jeitinho.
Tudo bem que desse jeitinho para o mensalão existe muita sofisticação maléfica arquitetada por cabeças inteligentes e experientes. Mas, ninguém pode negar que tudo começa daí. Essas pessoas que hoje desviam milhões, num passado distante, roubavam figurinhas de álbuns do campeonato brasileiro ou coisas assim. Eu também não estou dizendo “atire a primeira pedra...”, não, nada disso.
Meu medo, meu grande medo é que mais uma vez essas investigações acabem em nada. Com um ou dois bodes expiados e que não iniciem, por fim, um movimento encabeçado pelo Congresso e pelo povo que dê um exemplo a todo Brasil, que dê um basta em todas as falcatruas – as minúsculas ou as maiúsculas – que impedem o país finalmente engrene na democracia. Desenvolvimento econômico, taxa de juros, empregos, exportações são coisas importantíssimas, mas não é isto que faz uma grande pátria. O que faz uma grande pátria é um povo que acredite, no seu mais íntimo pensamento, na democracia, que respeite as leis (é preciso que haja leis mais inteligentes e mais justiça, é óbvio) e o que faz um grande país é, por fim, a cultura teatro, música, literatura, escultura, etc, mas isso é outra canção.
Eu não escondo de ninguém que sou tucano, não sou filiado, mas sou tucano de coração. E eu não quero ver impeachment, renúncias, desastres nacionais, desmoralização do governo, etc. Eu só quero (quem não quer?) que esse réquiem nacional termine ao seu tempo e que puna exemplarmente quem deva ser punido e que a massa tenha a sensação de que o país está realmente mudando para uma realidade mais ética e que seja ela mesma, a massa, mais ética e que se inicie assim um círculo virtuoso de crença na democracia representativa, na justiça e na ética. Só assim seremos o futuro do Brasil e só assim seremos o país do futuro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário