“Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena.
Mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.”
(Ferreira Gullar)
Não, eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre mensalão! Confesso honestamente que não tenho mais estômago pra agüentar tudo isso. Também não vou ficar aqui falando sobre a economia, a violência, a educação, enfim, todos esses assuntos que são muito importantes, mas sobre os quais eu não tenho mais nada de novo pra falar. Não somos somente 170 milhões de técnicos de futebol, somos 170 mihões de presidentes, de geneticistas, de teólogos, de instrutores de trânsito, etc. Todos sabem o que se precisa fazer, o problema é que nada é feito porque somos revolucionários somente enquanto assistimos ao Jornal Nacional. Ninguém é revolucionário segunda-feira, às 7h da manhã e é por isso que as coisas não mudam.
Eu quero falar do que muda sempre, todo dia, todo segundo e sobre a qual, certamente, cada um de nós é o único entendedor (de fato): a nossa vida. Não, não é nenhuma viagem filosófica... pelo amor de Deus, não! Como eu já disse, estou saturado, obeso de coisas sérias.
Há quase um mês atrás, eu completei meus 20 anos. Mais que isso, nesse ano, a maioria dos meus amigos completa 20 anos, mais ainda, todo mudo completa algum ano nesse ano. Mas só agora, aos 20 anos, é que a minha vida e a de muita gente que eu conheço vai mudando demais deixando o sujeito perdido, perplexo, como quem leva um soco e nem sabe de onde veio.
Tenho amigos que já morreram antes dos 20 anos - Paloma, de pneumonia; Ayrton, à bala - e tenho outros que vão tomando atitudes tão adultas que muitos aos 40 não sabem se vão tomar, gente quase que se casando, buscando vida nova, em outros lugares, com novas pessoas, alguns conhecidos até filhos já tiveram.
Eu fico aqui olhando, olhando maravilhado pra tudo isso. Já dei minhas cabeçadas, mas nenhuma delas deixou alguma cicatriz. Já disse minhas idiotices, vivo dizendo idiotices, e já calei palavras interessantes o que criou silêncios idotas também. Tanta prudência me trouxe coisas maravilhosas e me tirou outras que talvez fossem maravilhosas, outras ainda que certamente seriam.
Mas chega um momento em que é preciso criar uma cicatriz, chega um momento em que a rugas começam a se formar (produtos e cirurgias escondem, mas elas estão lá), em que a gente começa a ser criticado, a ser insultado, a ser maltratado, a ser amado e nessa hora, a partir desse momento, tem que suportar a dor e o prazer sozinho. E é nessa hora que a vida fica mais interessante.
Fica interessante, mas também dá medo. Só os imbecis e os desinformados não têm medo do próprio futuro. Medo de falhar, de perder a casa, de não conseguir honrar os empréstimos, medo de errar irremediavelmente, medo de acabar como aquilo em que está se transformando.
Apesar do medo e da ansiedade, eu dou risada e vivo. Viver é sempre o melhor remédio. Afinal, todo mundo nasceu pelado e sem dentes – morrer de farrapos, no fim das contas, não deixa de ser um tipo de lucro.
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