"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda." (Cecília Meireles)
Por esses dias, houve na comunidade “Democracia”, do Orkut, uma discussão sobre “a farsa da democracia”. A pessoa que iniciou o debate afirmava que a democracia é, no fundo, uma grande farsa porque não é possível garantir de fato a todos a participação nas decisões, no poder e que a democracia desperta o individualismo, a corrupção, o liberalismo econômico, etc. Essa pessoa propunha um governo forte, nacionalista, que assegure ao Estado e à sociedade a ordem e o progresso. Nas minhas participações nessa discussão, eu me opus frontalmente a essas idéias. Mas, até mesmo por ser um democrata convicto, acho que todos têm o direito de pensar o que querem – por mais perigosas que sejam as conseqüências desses pensamentos.
Eu acho que a relação entre democracia e o homem é muito curiosa. Curiosa porque o homem não é democrático por natureza, ou seja, nós somos autoritários, egoístas, traiçoeiros, mesquinhos, etc. Rousseau que me perdoe, mas o homem jamais foi – nem será – puro por natureza. Mas, acontece que é preciso viver em sociedade, ninguém consegue viver sozinho, como uma ilha, por isso a democracia grega foi justamente uma maneira encontrada para viver em sociedade com um mínimo de harmonia e estabilidade social e política. Ninguém pode afirmar que a democracia é uma grande maravilha, um modelo de eficiência sem precedentes ou aplicável a todas as situações, em todos os lugares ou a todas as pessoas.
É engraçado perceber como é um exercício difícil entender as opiniões e comportamentos divergentes dos nossos. Eu, por exemplo, e isso não é uma brincadeira, não consigo entender o que leva uma pessoa com um mínimo de inteligência a acreditar no PT ou no Lula. Para mim é tão claro que Lula é um sujeito incompetente! Para mim é tão óbvio que Lula é um falastrão, um mentiroso, enfim, isso é tão claro que eu não entendo como alguns amigos meus tão inteligentes e superiores a mim, estão cegos a isso. A democracia vai contra a natureza do homem porque é preciso um esforço sobrenatural para respeitar o outro, entender que vê as coisas do seu modo. É inevitável não se desesperar e gritar: “MAS COMO!? VOCÊ NÃO PERCEBE!?”
Mas, viver de acordo com esses nossos “instintos primitivos”, como queira Bob Jeff, seria o caos total, uma guerra civil eterna, uma sucessão infindável de golpes e repressão.
A democracia é somente, tão somente, um sistema que busca assegurar a todos a maior necessidade humana – a liberdade – por meio de um acordo no qual se pressupõe o respeito ao contraditório, ainda que isso seja quase inconcebível algumas vezes. A democracia é sempre o caminho do meio e por isso algumas medidas importantes, como a reforma política, não saem ou saem mutiladas e quase inócuas. Mas, mesmo assim, lentamente, de grão em grão é quase se conseguirá atingir um objetivo maior com mais vidas poupadas.
Essa inegável ineficiência da democracia é que atrai muitos a buscar um caminho mais rápido, mais enérgico, mais prático – custe o que custar. A democracia é ineficiente, mas é eficaz. A longo prazo, só um sistema que funcione sob um acordo de respeito mútuo das individualidades pode atingir os objetivos da coletividade.
Mas isso é só a minha opinião, torta e vulgar, e como um democrata, eu acredito que é possível que outros discordem e estejam corretos.
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