“Sou um homem. Nada que é humano me é indiferente” (Terêncio, autor latino)
Como tantos, também vi "Falcão - Meninos do Tráfico". Como tantos, senti desconforto diante daquela realidade mostrada, escancarada (embora sabida) ao Brasil em horário dito nobre. Mas não quero falar propriamente disso, seria demasiado óbvio da minha parte dizer que isso é um absurdo, uma coisa tenebrosa, etc, etc. É claro que é, mas quero comentar outro aspecto do que aconteceu.
Muito louvável a iniciativa (?) da Rede Globo de exibir em um programa de grande audiência (Fantástico) esse importante documentário. Muito louvável e natural e saudável o debate que se seguiu ao documentário durante a semana. Mas no domingo seguinte ao da apresentação... ah, Deus! A Globo perdeu todos os pontos que poderia ter ganhado comigo - não que isso lhe dê cuidados, evidentemente.
Descontente em ganhar prestígio e audiência, a Globo quis ganhar mais dinheiro encima desses meninos tão sofridos por meio da prolongação comercializada do tema. A velha abordagem demagoga de "salvamos um desgraçado" voltou à tona com o Domingão do Faustão mostrando o único sobrevivente dentre os meninos que participaram do documentário. Esse tipo de quadro não criação nem exclusividade da Globo: Gugu com o seu "De volta a minha terra"; Netinho com "Um dia de princesa", enfim, mais ou menos famosos, mais ou menos apelativos, há para todos os estômagos.
Que cenas espetacularmente hipócritas foram mostradas domingo passado. Sei que teve muita gente de bom coração que se emocionou ao ver todos aqueles relatos, todas aquelas lágrimas, toda aquela carga de emoção dos gestos, dos "eu me importo". Pode parecer infâmia criticar isso, mas quero demonstrar que não é infame e, sim, necessário repudiar esse tipo de quadro e esse tipo de programa.
De onde nascem os meninos do tráfico? Da pobreza? Da exclusão social? Do desemprego? Da insegurança? Sim, claro que sim, mas, em uma análise mais acurada, há muito mais do que isso. Os meninos do tráfico nascem dos lucros bilionários que as instituições financeiras obtêm ano após ano, os meninos do tráfico vêm dos bilhões de dólares pagos anualmente pelo governo brasileiro e vêm do pouco dinheiro que sobra para a cultura, a educação, o esporte e o lazer. Não só eles, mas também é desse ventre podre que vêm a prostituta, o trombadinha, o analfabeto, o velho doente na fila do hospital. Esse submundo, essa subgente nasce de cada "não vou responder" de Duda Mendonça, de cada rebolada de Angela Guadagnin, de cada habeas-corpus do Supremo, do joguete escuso feito por essas super-hiper-ultra-mega-transnacionais. E é justamente neste ponto que reside toda a hipocrisia desses quadros "salvamos um desgraçado". A hipocrisia reside aí porque a cada um que eles "salvam", um mil eles criam. É como um madeireiro fazer auto-promoção por reflorestar 1 km² da Floresta Amazônica, isso é hipócrita porque ele devasta outros tantos milhões.
Que circo patético ver aquele desembargador destilar bobagens de cidadão preocupado quando a sua classe faz greve (greve do Judiciário!!!) para manter o "direito adquirido" ao nepotismo. Que circo de horrores ver artistas, celebridades se indignarem com tanto fervor com a pobreza e a miséria e o des-destino daquele garoto enquanto sofrem do empanzinamento do banquete passado. Circo, por sinal, é o que o menino disse sempre ter sonhado ver. Verá. O todo-bondoso Beto Carreiro vai dar um bilhete para um mundo de fantasia - enquanto faz um comercial de seu estabelecimento, já que ninguém é de ferro.
Nessa relação dialética que nós brasileiros temos com a Rede Globo, a qual devemos grandes feitos artísticos e jornalísticos e episódios de vergonhosa demagogia e parcialismo e manipulação despótica da opinião pública nacional, assistimos a mais uma lição de brasilidade: o pacotão de bondades dado pela elite econômica e política a um pobre menino do tráfico (que continuará menino do tráfico) para, assim, aliviar o peso de sua consciência, o peso da consciência de saber que o subproduto da sua ganância pelo lucro e pelo poder são gerações (lotes?) de meninos do tráfico.
Um comentário:
Oie thi sempre ensinando coisas novas para mim e para muita gente...Legal seu blog bastante coisas interesantes que faz qualquer pessoa parar para ler.
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