"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida." (Clarice Lispector)
O debate sobre o Referendo pela proibição da venda de armas de fogo e munição no Brasil realmente tomou conta do país, ao menos é o que se conclui da tsunami de charges, piadas, estatísticas, artigos e apresentações de slides que têm alagado as caixas de entrada de todos.
Eu voto sim. Não movido pelos apelos da Fernanda Montenegro ou do Chico Buarque; sem dúvida que são pessoas inteligentes e que o simples fato de conhecer seu posicionamento tem algum peso sobre a decisão das pessoas. Não guiado por um sentimento mezzo hippie, mezzo mussarela. Voto sim porque eu acredito que a proibição é o primeiro passo para se chegar a um Brasil com mais paz. Voto sim porque não gosto da estupidez das armas, mais: não gosto da estupidez das pessoas que usam armas.
Todos sabemos que o Brasil é um país machista, esse Referendo mostra que além de machista o Brasil é um país de pessoas truculentas. Mas, eu não digo isso como quem critica - digo como quem entende. Entendo que em uma época de extremos a massa tende a tomar atitudes extremas. O resultado disso é quase sempre lágrimas, perdas e arrependimento. Foi isso que aconteceu na Alemanha de Hitler - um povo massacrado e humilhado pela 1ª Guerra que entregou seu destino incondicionalmente nas mãos de um sádico. Foi assim que se comportaram os camponeses na Revolução Francesa - destruídos pela fome, sufocados pela exploração da nobreza e do alto clero, frustrados nos seus sonhos de liberdade, igualdade e fraternidade, foram buscar esse sonho às custas de sangue, assassinatos e execuções.
O Brasil vive um momento desses. Hoje, nos estúdios da Rádio USP, um estudante de jornalismo assassinou seu colega com uma faca de cozinha. Há dois anos, uma jovem de classe média alta assassinou os pais, ajudada pelo namorado e um amigo dele. Há alguns meses, uma família foi brutalmente assassinada por conhecidos que queriam roubar o dinheiro de dois jovens haviam ganhado com seus trabalhos no Japão. A lista é interminável. A brutalidade, a irracionalidade, a falta de motivos, a frieza, o animalesco dos crimes.
Nesse contexto, surgem opiniões-brucutus como "eu acho que tem pegar esses capangas e meter bala", "esses Direitos Humanos só aparecem pra proteger bandido", "tem que botar pena de morte pra esses canalhas", "eu acho que tem tratar esses caras a pão e água". Fica difícil se posicionar contra argumentos-brucutus como esses. Chamo de argumentos-brucutus não para ridicularizar, mas porque eles não se baseiam na razão. Eles apelam para o sentimento humano da indignação, da vingança que atinge todos nós ao saber de crimes hediondos. Opiniões-brucutus nos induzem a fazer justiça com as próprias mãos, a praticar o olho por olho.
Mesmo assim, devemos manter a esperança de construir um país melhor nos limites da lei, da democracia, do respeito aos Direitos Humanos. Afinal, não é com gritos que se consegue silêncio, não é com lágrimas que se fica feliz, não é com sombras que se ilumina e não é com truculência que se consegue paz.
Os argumentos-brucutus contrários a isso seriam "você diz isso porque nunca teve um 38 na nuca", "essa baboseira toda é conversa de gente sonhadora, o sujeito só se endireita na linha dura", etc. Outros destilam estatísticas tiradas da cartola, citam fatos históricos totalmente desconexos com o nosso momento. A ideologia-brucutu é algo fácil de se assimilar, fácil de tomar partido. Mas é uma bomba-relógio para as pessoas.
A proibição vai diminuir o número de armas e isso tem um efeito logicamente provável: menos armas, menos tiros, menos atingidos, menos perdas. Ainda que a diminuição seja ínfima, mais vale salvar uma vida que perder um "direito". Intrigante esse direito: portar armas. Eu não sou um jurista, mas arrisco dizer que a nossa Constituição não prevê esse direito, diferentemente do direito incondicional à vida.
Vale lembrar as palavras de Gandhi: "você tem que ser a mudança que você quer ver no mundo", ou seja, quem quer paz tem que ser pacífico.
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