quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Os chips, as potrancas e a Globo

"Diga-me a sua opinião e direi quem pensa por você" (Werner Mitsch)

Toda quarta-feira tem discussão. Toda santa quart-feira, quando temos aula de Auditoria de Sistemas, o assunto toma um ou outro atalho e acaba em debates acalorados. Não são brigas, são debates acalorados. A discussão preferida é sobre os limites do avanço da tecnologia.

Eu me lembro de uma certa vez em que alguém falou sobre a implantação de chips em seres humanos. Bom, geralmente, essas discussões em sala começam sempre assim: "Eu li, não me lembro onde...", "Eu vi, acho que foi no Fantástico", "Eu recebi um e-mail sobre...", por fim, muitas vezes as histórias, os exemplos são mirabolantes e não têm fonte conhecida, portanto sempre há que se suspeitar. Mas, eu juro que alguém falou sobre isso, não me lembro quem nem quando. Mas falaram sobre a implantação de chips em seres humanos.

Os chips conteriam várias informações sobre o indivíduo, substituiria todos aqueles documentos (RG, CPF, CNH, Cartões de Crédito, de Débito, etc.), o chip permitiria que fôssemos ao supermercado, pegássemos nossas coisas e saíssemos sem ter que passar pelo caixa: ao passar pela porta do supermercado, um sistema de etiquetas inteligentes contabilizaria o total da compra e debitaria automaticamente na nossa conta através do danadinho do chip. "Eu li, não me lembro onde...", mas parece que isso já existe.

Eu não quero ser um retrógrado. Nunca quis. Mas nós vivemos numa época e numa sociedade que banalizou de tal forma o ser humano que está sendo tirado de nós o direito de resistir. Hoje, não somos mais seres humanos, somos consumidores. Que fique claro que não sou socialista, mas o capitalismo não me convenceu.

Vejam o Brasil. As meninas dançam funk. Ora, que mal há nisso? Não, aparentemente não há nenhum mal nisso. "É só um tipo de música. Você pode gostar ou não, mas é só uma música. Ah, por favor, deixa de ser chato, de ser velho. Até a Raíssa dança funk. Isso é preconceito com o morro". As pessoas parecem que perderam o senso crítico. As garotas rebolam pra lá e pra cá feito umas lagartixas seminuas e nem ouvem que estão sendo chamadas de "cachorra", de "galinha", de "pulguenta", "potranca"... é de colocar a Arca de Noé no chinelo. Elas rebolam pela apologia ao machismo. Mas eu nem vou entrar nesse tema de novo, porque se não vão me chamar de feminista.

O que mais me entristece é ver milhões e milhões de pessoas sem opinião própria, por mais absurda ou retrógrada que sejam. Não, as pessoas repetem o que o Faustão fala, o que o Clodovil pensa, o que a mocinha da novela fez, o que a Tati Quebra Barraco canta, enfim, geralmente o que a Globo predicou.

Nada contra a Globo. Eu assisto à Globo. Mas as pessoas precisam ter discernimento. Ver e criticar. Temos que deixar de ser só receptores e passar a ser produtores de conhecimento.

Mas o que as potrancas e a Globo têm a ver com os chips? Ora, com esse tipo de gente, é muito fácil vender chips para humanos. Não é maravilhoso não ter que carregar aquele monte de documentos? Não é paradisíaco entrar no Extra e sair sem ter que perder tempo no caixa? É, mas tudo tem que ser dissecado pelo pensamento crítico, tudo.

Imaginem vocês, que belo rebanho de ovelhinhas indo pra lá e pra cá e sendo rastreadas... aliás, rastreadas por quem? Sim, porque se vai haver um chip tão engenhoso, tão poderoso, alguém tem que controlar. Alguém vai ME controlar. Quem? Não sei. Os satélites são quase todos norte-americanos. Parece um pensamento paranóico, conspiratório, mas a idéia de colocarem um sino de vaca eletrônico e intracutâneo em mim não me parece menos paranóica.

São várias as questões, clonagem, morte induzida, aborto, união civil gay, enfim, temas sérios, dos quais não podemos escapar e que não podemos avaliar pela visão fácil, fast-food e comercial da mídia e nem pelos olhos míopes, para não dizer cegos, e excessivamente estáticos da religião. Temos que pensar essas coisas de maneira séria, profunda e demorada, talvez não demorada, mas sem pressa e com objetividade.

E deve ser garantido às pessoas o direito de resistir, de dizer "não, senhor vendedor de facilidades tecnológicas, não quero isso", "mas vai melhorar a sua vida, é hiper moderno", "sim, mas eu pensei bem e não quero". Podemos errar ou acertar. Só não podemos tomar decisões se baseando apenas pela opinião da Globo ou de uma igreja. Criticar é preciso, ruminar em frente a televisão não é preciso.

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