“Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras.” (Clarice Lispector)
Um dia, quando eu era pequeno, uns cinco ou seis, fui almoçar na casa de um amigo meu. Sentamos à mesa, panelas, pratos, copos, garfos, tudo normal até que esse meu amigo pede "mãe, pega o catchup"... catchup? Pra quê? Para meu espanto, ele pôs o catchup sobre o arroz, com gosto, bastante, eu senti nojo, onde já se viu: catchup no arroz? Asqueroso (na verdade, eu não pensei em "asqueroso" porque com cinco anos eu não sabia o que essa palavra dizia). E não foi só ele: a mãe dele, as irmãs dele, até o cachorro dele chegava àquele nível. Ainda por cima me ofereceram, eu disse não.
Por incrível que pareça isso tem a ver com a morte de Arafat! Aquelas cenas de adoração do povo por ele foram surpreendentes. Enquanto isso alguém em Israel pensava: "chorar por Arafat? Só se for de tanto rir!"
Somos 6 bilhões de pessoas e se o meu vizinho pode ter hábitos estranhos pra mim imagine quão estranho um mulçumano é para um judeu e vice-versa! Sinceramente, eu acho que a intolerância é a chave de tudo. Grande coisa, dirão. Eu não falo isso como quem acabou de descobrir onde está o espinho que faz doer o corpo todo, mas como alguém que não acredita que um problema originado de algo tão simples possa ser tão complexo. E essa intolerância vem dos ismos: o patriotismo, o fundamentalismo, o islamismo, o judaísmo, enfim todos esse conceitos imbecis que foram importantes no passado mas hoje, são laranjas podres espalhando podridão pelas outras laranjas. Eu já disse que tenho minhas críticas à religião, seja qual for, mesmo a minha. Se pudéssemos simplesmente esquecer nossas diferenças ou mesmo dar mais importância às nossas igualdades (que não são poucas) estaríamos bem melhor. Eu não estou desejando que muçulmanos e judeus, brancos e negros, Bush e Bin Laden, católicos e protestantes se dêem as mãos e saiam saltando pelos campos verdes numa manhã de sol. Mas com certeza é uma questão de educação. Se déssemos mais dinheiro às universidades, à escolas e menos à igrejas e aos governos, se apostássemos em pessoas mais científicas e menos religiosas. Talvez as coisas estivessem bem melhor.
Se alguém me oferecer catchup para pôr no meu arroz eu vou recusar porque não fui acostumado a isso. Mas não vou deixar de comer do lado de quem põe nem vou forçá-lo a deixar esse costume.
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