“Marcela amou-me durante quinze dias e onze contos de réis; nada menos” (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Eu pretendia falar sobre a cúpula América Latina – Países Árabes, realizada em Brasília, semana passada. Mas além de esse assunto ser muito chato, surgiu um tema novo, muito mais interessante. Foi a separação de Ronaldo, o fenômeno – será? – e Daniela Cicarelli.
Eu não sou fofoqueiro, não é por isso que esse assunto é mais importante que a cúpula América Latina – Países Árabes. É porque esse affair exemplifica muito bem a mediocridade em que todos nós estamos afundados nestes últimos anos.
Os brasileiros usaram e adotaram a cultura fast food, em que tudo se compra, tudo se vende, tudo é relativo, tudo depende da situação, tudo pode ser empurrado porque tudo pode ser comprado, tudo apodrece rápido para dar lugar à nova porcaria do ano, do mês, da hora, do minuto.
Um exemplo dessa cultura fast food foi esse casamento realizado com um luxo afrontador, brega, que contou com a participação da imprensa abutre a espera de puxões de cabelo, gafes, mulheres expulsas, vestidos de grife, um padre que serve muito mais à mídia que a Deus (que parece ter nascido grudado com aquela imagem de Maria no braço).
Essa união – que mais mereceu o nome de sociedade comercial – foi celebrada com um pouco de amor, um bocado de tesão, e muita esperteza; das duas partes. Afinal, Ronaldo teve o bom prazer que seu dinheiro pôde pagar e Daniela – pobrezinha – vai sofrer com seus milhões de reais.
Eu não sou frio, não sou calculista: ela (dizem) perdeu um filho, mas eu também não sou ginecologista. Eu só me pergunto até quando nós vamos comer isso? Comer Big Brother, comer Sandy e Júnior, comer potrancas – cuidado com a interpretação!
Essas coisas que empurram goela abaixo do povo mediocrizam o país. Nos anos anteriores também se vivia com dificuldade, na pobreza, mas havia estilo. Com Drummond, Elis, João Cabral, Raquel de Queirós, Tom Jobim, Chico Buarque – sem saudosismo, porque eu não vivi esse tempo, mas é muito triste viver como se vive aqui e agora: ouvindo Latino, lendo Caras, assistindo novela, buscando fofoca, pagando para ver casamentos de celebridades, torcendo pelos seus escândalos, vivendo um vazio desesperante, produzindo arte que se expõe hoje e amanhã se esquece, sem nada de definitivo, sem nada para a posteridade, sem nada que ensine ou provoque quem vier.
Isso é muito mais sério que parece. Sem arte, sem limites, sem mínimas noções de algo absoluto, de definitivo, as coisas se liberam e se encaminham para um lodo de mesmice em que nós perdemos a criatividade. E um ser humano que não sabe criar – seja amor, sejam filhos, sejam peças de teatro – não é humano. É um animal somente. Um animal que obedece a instintos, sem criticar, sem inovar, sem mudar, sem nada de belo porque se possa viver.
Nenhum comentário:
Postar um comentário