quarta-feira, 21 de maio de 2014

O pânico em torno de Piketty

Por Paul Krugman

O novo livro do economista francês Thomas Piketty, "Capital in the Twenty-First Century" (o capital no Século XXI), é um autêntico fenômeno. Outros livros sobre economia já foram best-sellers, mas a contribuição de Piketty é séria, um estudo que transforma discursos, diferentemente da maior parte dos best-sellers. E os conservadores estão aterrorizados.
Assim, James Pethokoukis, do American Enterprise Institute, adverte no "National Review" que o trabalho de Piketty deve ser refutado, caso contrário, "vai se espalhar entre os intelectuais e remodelar a paisagem política e econômica na qual serão travadas todas as batalhas políticas futuras". Bem, boa sorte nessa empreitada.
O que é realmente impressionante neste debate até agora é que a direita parece incapaz de montar qualquer tipo de contra-ataque substantivo à tese de Piketty. Em vez disso, sua reação tem sido xingar -em particular, chamar Piketty de marxista, assim como qualquer um que considere a desigualdade de renda e riqueza uma questão importante.

Voltarei à questão dos xingamentos em um momento. Primeiro, vamos falar sobre por que o "Capital" está tendo um impacto tão grande.

Piketty não é o primeiro economista a salientar que estamos experimentando um forte aumento da desigualdade, ou até mesmo a enfatizar o contraste entre o lento crescimento da renda para a maioria da população e os rendimentos incríveis no topo. É verdade que Piketty e seus colegas agregaram uma profundidade histórica ao nosso conhecimento, demonstrando que realmente estamos vivendo em uma nova Era Dourada. Mas nós sabemos disso há algum tempo.

Não. O que é realmente novo sobre o "Capital" é a maneira como destrói o mais amado mito dos conservadores, a insistência de que estamos vivendo em uma meritocracia, na qual as grandes fortunas são conquistadas e merecidas.

Nas últimas duas décadas, a resposta conservadora às tentativas de tratar de forma política a questão das maiores rendas envolveu duas linhas de defesa: em primeiro lugar, a negação de que os ricos estão realmente se dando tão bem e o resto tão mal. E quando esta negação falha, eles alegam que essas rendas elevadas são uma recompensa justificada por serviços prestados. Segundo eles, não se deve chamá-las de 1% ou de ricos, mas sim de "geradores de emprego".

Mas como fazer essa defesa, se os ricos derivam grande parte de sua renda não do trabalho que eles fazem, mas dos ativos que possuem? E se as grandes fortunas, cada vez mais, não vêm de empreendimentos, e sim de heranças?

O que Piketty mostra é que estas não são questões menores. As sociedades ocidentais antes da Primeira Guerra Mundial de fato eram dominadas por uma oligarquia de riqueza herdada -e seu livro argumenta convincentemente de que estamos claramente voltando a esse estado.

Então o que os conversadores podem fazer, diante do medo que esse diagnóstico possa ser usado para justificar o aumento de impostos sobre os ricos? Podem tentar refutar Piketty de forma substantiva, mas, até agora, eu não vi nenhum sinal disso. Em seu lugar, como eu disse, há apenas xingamentos.

Isso não deveria ser surpreendente. Estive envolvido em debates sobre a desigualdade de renda por mais de duas décadas e nunca vi os "especialistas" conservadores conseguirem negar os números sem tropeçarem em seus próprios cadarços intelectuais. Ora, é quase como se os fatos fundamentalmente não estivessem do lado deles. Ao mesmo tempo, xingar de vermelho todo mundo que questione qualquer aspecto do dogma do livre mercado tem sido um procedimento padrão da direita, desde que pessoas como William F. Buckley tentaram impedir o ensino da economia keynesiana, não por prová-la errada, mas denunciando-a como "coletivista".

Ainda assim, tem sido incrível assistir os conservadores, um após o outro, denunciarem Piketty como marxista. Até mesmo Pethokoukis, que é mais sofisticado do que o resto, chama o "Capital" de uma obra de "marxismo light", o que só faz sentido se a mera menção à desigualdade de riqueza faça de você um marxista. (Talvez seja assim mesmo a visão deles: recentemente o ex-senador Rick Santorum denunciou o termo "classe média" como "conversa marxista", porque, veja bem, não temos classes nos Estados Unidos.)

E o "Wall Street Journal", em sua crítica ao livro, de forma muito previsível percorre todo esse percurso. De alguma forma, ele consegue comparar a defesa de Piketty da tributação progressiva como forma de limitar a concentração de riqueza -um remédio tão americano quanto a torta de maçã, defendido não apenas por economistas, mas também por políticos, inclusive Teddy Roosevelt- aos males do stalinismo. Isso é realmente o melhor que o "Wall Street Journal" consegue fazer? A resposta, aparentemente, é sim.

Agora, o fato de os apologistas dos oligarcas norte-americanos estarem evidentemente em falta de argumentos coerentes não significa que eles estejam politicamente em fuga. O dinheiro ainda fala -na verdade, em parte graças ao Supremo Tribunal de Roberts, fala mais alto do que nunca. Ainda assim, as ideias também importam, moldando a forma como falamos sobre a sociedade e, eventualmente, a forma como agimos. E o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias.

Tradutor: Deborah Weinberg

domingo, 28 de julho de 2013

Organizando seu tempo, melhorando seus estudos (parte 1)

O dilema número 1 de vestibulandos, concurseiros, estudantes em geral é: "como aproveitar melhor meu tempo em meio a tantos afazeres, obrigações e distrações?".

Eu mesmo tenho enfrentando esse problema cotidianamente, já que tenho as restrições de qualquer pessoa normal: tempo perdido no trânsito, 40 horas semanais de trabalho, tempo para dedicar à família e ao lazer, tempo para fazer compras, limpar a casa, etc.

Abaixo, segue um condensado de sugestões sobre como organizar melhor seu tempo (e aproveitá-lo):


1. O engano do tempo

Normalmente, as coisas levam mais tempo do que pensamos. Então, na hora de fazer um planejamento, lembre-se disso e seja sincero: "será que tomar banho, trocar de roupa e tomar café não vai levar mais do que 40 min.?".

2. Lazer em primeiro lugar

Ninguém é de ferro. Todos precisamos nos divertir, praticar esportes, relaxar... então, quando for organizar o seu tempo, pense primeiramente no tempo de diversão que você merece. Depois, organize todo o resto: trabalho, refeições, tempo de deslocamento, etc. Finalmente, o que sobrar será seu tempo sagrado de estudo.

Isso pode parecer estratégia de preguiçoso, mas... somos todos preguiçosos, não? Portanto, o melhor é reconhecer isso e tentar ser o mais realista possível.

3. Planos e escalas

Percorrer um caminho é mais simples quando se sabe de antemão por onde ir, ou seja, fazer planos é algo importante. Todos sabemos disso, o que queremos saber é "por que meus planos nunca são concretizados?". Em 99% das vezes, a resposta é um misto de nossa falta de comprometimento e autodisciplina e de nossa dificuldade em sermos realistas.

Aqui vai uma dica para fazer planos, é o método SMART. SMART é um acrônimo em inglês para (Specific, Measurable, Action-oriented, Realistic, Time-based). Quer dizer, seu plano terá muito mais chances de ser concretizado se for:

Específico: não tiver como metas coisas genéricas como "viver melhor", mas sim coisas específicas como "perder peso".

Mensurável: buscar parâmetros de acordo com os quais você possa medir se está progredindo ou estagnado.

Orientado para ações: direcionar seus planos em ações concretas que sejam claras. Quanto maior a objetividade das ações que você programar, maior as chances de o plano dar certo, então, não programe "ler mais livros", programe "ler o livro X", "resenhar o artigo Y".

Realista: seja sincero quanto às suas limitações de tempo, o quanto você é preguiçoso, etc. Depois de desbastar seu plano de tudo que não seja realmente possível, você poderá pensar: "esse plano é simplório demais, eu preciso de coisas mais ambiciosas", mas acredite, você não precisa. De coisas simples em coisas simples conseguimos alcançar objetivos maiores (desculpem, foi a melhor tentativa para fugir do "de grão em grão a galinha enche o papo").

Baseado no tempo: tudo leva tempo, por isso, qualquer plano que não leve em consideração quanto tempo levará tal tarefa, está fadado ao insucesso e lembre-se do que foi dito acima sobre o engano do tempo.

Em resumo, é isso. O acrônimo em português ficaria EMORB, o que não quer dizer nada. Fiquemos com SMART.

Para finalizar, é muito importante detalhar seu plano em escalas mensais, semanais e/ou diárias (esta última, minha preferida). É uma forma de detalhar ao máximo o quê exatamente deveremos fazer em determinado horário.

C'est fini ou zé fini mesmo. Na próxima postagem, falarei um pouco mais sobre meios de aproveitar melhor os estudos. Abaixo seguem os links dos vídeos de onde tirei a maior parte das dicas deste post:






terça-feira, 9 de julho de 2013

Sobre os médicos de fora

Um dos pressupostos do neoliberalismo é a existência de uma taxa “natural” de desemprego, não necessariamente pequena, contra a qual a atuação dos governos seria infrutífera e principalmente indesejável.

Indesejável porque a existência de um exército de reserva de desempregados desesperados para conseguir qualquer trabalho por qualquer salário em quaisquer condições supostamente contribuiria para o aumento da produtividade e a diminuição das reclamações dos empregados por melhores salários e melhores condições de trabalho, uma vez que a ameaça do “se você não quer, tem quem queira” inviabilizaria a luta dos trabalhadores contra seus patrões.

Normalmente ninguém se preocupa quando se trata de faxineiras ou pedreiros ou porteiros, mas se a lógica se aplica a trabalhadores como, por exemplo, médicos, a situação é completamente diferente. Os jornais, telejornais, as redes sociais fervilham de protestos por todos os lados. Quer dizer: não me importa se a doméstica que limpa minha casa vem do Paraguai, de Cuba ou da Bolívia, mas o meu médico tem que ser brasileiro – de preferência formado no Sul ou no Sudeste.

Tentando ser direto, organizei os principais argumentos contrários à contratação de médicos estrangeiros que tenho ouvido e, em seguida, anotei alguns comentários.

1. Que garantias temos de que esses médicos estrangeiros são bem preparados?

Essa preocupação é válida, mas convém perguntar: que garantia você tem de que os nossos médicos são bem preparados? Talvez alguns tenham se esquecido, mas um exame realizado em 2012 pelo CREMESP reprovou 54% dos recém-formados em Medicina (leia mais); também é preciso trazer à memória dessas pessoas que são alarmantes os casos de erros médicos cometidos por profissionais brasileiros puro-sangue, o que, aliás, obrigou o Ministério da Saúde a adotar neste ano um Plano Nacional de Segurança do Paciente (leia mais), sendo digno de nota que um estudo sobre o tema da Fiocruz verificou que 67% desses casos são evitáveis.


2. Se os médicos recebessem um salário maior, eles trabalhariam em lugares carentes de profissionais

Sim, mas isso não vai mudar de hoje para amanhã.

Por outro lado, uma criança pode morrer de hoje para amanhã por falta de médico. É evidente que a contratação de médicos estrangeiros é uma medida paliativa, mas enquanto a solução definitiva não chega fazemos o quê?

Esse pensamento é da mesma natureza daqueles que criticam a instalação de sirenes em pontos de risco de deslizamento, porque isso não resolve o problema das habitações precárias. Daí, a população fica sem o mecanismo de alerta e sem a solução definitiva. Convenhamos, todos conhecemos com as coisas operam no Brasil.

3. A barreira do idioma atrapalha a relação médico-paciente

Ah, a relação médico-paciente! Todos que já precisamos ir a um hospital por causa de uma gripe sabemos como nossos médicos são atenciosos! Como eles conversam com a gente! O olho no olho, a atenção ao que dizemos! Ah...

Bom, acho que o sentido dessa ironia pode ser bem captado por todos e é suficiente para deixar claro que, em geral, os nossos médicos não dão a mínima para os seus pacientes.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

11 de setembro


A empolgação neoliberal de que a história havia sido, afinal, vencida desfez-se juntamente com cada bloco que virava pó do World Trade Center.

O atentado terrorista organizado por Bin Laden representou entre outras coisas o recado duro de que enquanto houver humanidade, nunca se encerrará a História.

E, em termos históricos, atentados terroristas não representam uma novidade, nem mesmo é possível dizer que os ataques da Al-Qaeda foram mais mortíferos ou mais destrutivos materialmente do que os atentados do passado – mas o que importou é o símbolo, sempre o símbolo.

Assim como a queda da Bastilha não foi simplesmente a tomada de uma cadeia empoeirada e mal vigiada, aqueles aviões que atingiram prédios simbólicos dos EUA foram mais que um assassinato coletivo brutal.

Ainda não se pode dizer ao certo quais foram e quais serão os impactos daqueles atos. Mas inconfundivelmente é possível perceber que o mundo se tornou um lugar mais tenebroso do que era antes.

E essas trevas se devem menos a Bin Laden do que a Bush e seus seguidores do assustador Tea Party. É que o medo que assolou a todos os estadunidenses depois daquele dia, abriu caminho para que o presidente daquele país e sua equipe impusessem uma série de medidas que aumentaram o controle social, relativizaram liberdades individuais e coletivas, radicalizaram a ideologia neoliberal (essa sim o pior dos fundamentalismos como que convivemos) e permitiram que nas relações internacionais se convivência com essa excrecência clamada pela Doutrina Bush de “ataques preventivos”.
Depois de os fanáticos da Al-Qaeda destruíram todas aquelas vidas, a comunidade internacional não teve força e os líderes internacionais não tiveram vontade de unir esforços para um verdadeiro combate ao terror: pensar em formas concretas de proteger uma criança afegã ou palestina ou sudanesa ou brasileira ou de qualquer país dos assédios do crime organizado ou do terrorismo, principalmente permitindo que ela tenha oportunidades de seguir outro rumo.

Isso não foi feito, mas ainda pode ser feito. Aí sim estaríamos prestando uma grande homenagem a todos aqueles inocentes que perderam suas vidas naquela tragédia. Aliás, em tempo, é preciso não relativizar o horror das vítimas do 11 de setembro de 2011, com outras vítimas. Isto é, os chilenos que foram vitimados pelo golpe de 11/09/73 não são mortos mais autênticos que os americanos – isso é uma ideia macabra! Uma agenda libertária da humanidade não pode esconder uma satisfação cínica de que “finalmente alguém teve coragem de atacar aqueles imperialistas, bem feito!”, nem sequer pode se pautar por uma contabilidade funerária em que um evento em que morrem 10 pessoas é menos importante do que aquele em que morrem 12 – não, não não! A vida deve ser um valor absoluto e inegociável e a morte covarde de um único ser humano é injustificável – não interessa que ele seja o mais tacanho dos reacionários ou o mais promissor dos revolucionários.

domingo, 25 de outubro de 2009

Jesus e Judas

Depois de meses de inatividade neste blog, retorno!

A notícia, pinçada do Estadão: "Lula é criticado por dizer que Jesus se aliaria a Judas no Brasil, 'Se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse votação, Jesus teria de fazer coalizão com Judas', disse o presidente" (leia mais).

Quem me conhece sabe da minha antipatia pelo PT-Campo Majoritário e pelo comportamento do presidente. Portanto, tenho que reconhecer que muitas vezes minha opinião fica viciada por um pré-conceito.

Evidentemente que não quero fazer nenhum julgamento moralista ou religioso com relação ao que o presidente disse, até porque não sou moralista nem religioso, mas gostaria de divagar um pouco sobre as consequências que essa metáfora do presidente traz (ele que é o rei das metáforas).

Lula quis dizer, segundo entendi, que no Brasil só é possível governar através de alianças amorais, que se um governante realmente deseja fazer alguma coisa, precisa compactuar por vezes com seu pior inimigo, tendo em vista um bem maior.

O presidente foi coerente porque para se eleger fez alianças com o PL, com Sarney, como Renan Calheiros, até o Collor simpatiza com o Lula, etc... Representantes de tudo aquilo que o PT-Campo Majoritário sempre demonizou. O escândalo do mensalão foi mais um exemplo da política "os fins justificam os meios".
Esses e outros exemplos da ética maleável do PT-Campo Majoritário e de Lula foram deixados em segundo plano graças ao números respeitáveis do crescimento da economia brasileira e à forma corajosa e proativa com que Lula enfrentou a crise internacional. O eticômetro da opinião pública ficou paralisado ainda, pela autossuficiência em petróleo, a descoberta da bacia petrolífera de Santos, pelo anúncio da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, enfim... o ecos do "ninguém segura este país" foram bem utilizados pelo setor mais importante do governo Lula: o de Marketing.
Estamos entrando de cabeça em um nacionalismo bobo, que poderá deixar míopes os olhos críticos do país, incapazes, por exemplo, de rechaçar uma visão tão imoral de política como essa expressa pelo presidente.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Veja como votou seu deputado, se é que você se lembra dele

Os deputados aprovaram a famigerada CSS - Contribuição Social para a Saúde. Deixo adiante a listagem do voto de cada paralamentar. Se você ainda se lembra do nome em quem votou, cobre, mande emails, telefonema, carta, aerograma, sei lá... é preciso mostrar a esses senhores que eles não estão acima da vontade do povo - eles não têm o poder, eles estão com o poder, por nós delegado.

Se político só se convence pelo argumento do voto, que seja esse nosso argumento: mandem lá seu email para o senador Robaldo Mutreta e diga "escuta aqui, dr. Mutreta, se o sr. votar em favor dessa neo-CPMF, pode desconsiderar meu voto nas próximas eleições, ouviu?".



E é preciso passar das ameaças para a ação. Vejam por exemplo o Paulo Pereira da Silva, do PDT, o Paulinho da Farsa, vive reclamando do aumento de impostos, das imbecilidades do Estado e vota a favor da CSS? Tenha dó. Ele vai sair candidato a prefeitura de São Paulo, quem vota nele? E a Marta? A bancada do PT votou em peso a favor do novo velho imposto, que faremos?

Não caiam na lorota de que o dinheiro é pra saúde, não é. Quantos anos sobrevivemos apesar da CPMF sem ter notado NENHUMA melhora no SUS? Fica o desafio: quem vai tomar vergonha na cara primeiro: os políticos ou o povo?

Bom, segue o link, leiam e divirtam-se...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A ascensão do nazismo

Para falar da Declaração Universal dos Direitos Humanos, acho que convém conhecer um pouco melhor algumas situações vividas por alemães e italianos no pós-1ª guerra que fizeram com que a ideologia nazi-fascista se fortalecesse nesses países e chegasse ao poder pelas vias "democráticas". Hoje vamos tratar da ascensão do nazismo:

O Tratado de Versalhes (1919)

O Tratado de Versalhes, assinado ao final da 1ª Guerra Mundial, é considerado por muitos historiadores como um dos eventos causadores da ascensão do partido nazista na Alemanha, bem como da participação de alemães e italianos na 2ª Guerra Mundial.

A população alemã, as elites econômicas, a classe política e o exército nunca se conformaram com os termos do Tratado e o consideravam uma humilhação para a Alemanha.

O presidente americano Woodrow Wilson (na foto ao lado, o quarto a partir da esquerda, os outros são David Lloyd George, da Grã-Bretanha, Vittorio Orlando, da Itália, e Georges Clemenceau, da França) houvera proposto a “paz sem vencedores”, um acordo de “14 pontos” que previa a redefinição das fronteiras européias, obedecendo ao princípio da auto-determinação dos povos, ou seja, um Estado para cada povo. No entanto, França e Inglaterra não aceitaram um acordo de paz nesses termos e impuseram à Alemanha o Tratado de Versalhes. Pelo Tratado, a Alemanha era considerada culpada pela guerra e, portanto, deveria arcar com indenizações a serem pagas aos vencedores; a Alemanha perdia o domínio sobre a região da Alsácia-Lorena em favor da França, perdia todas suas colônias africanas e asiáticas, deveria obedecer a uma limitação de suas forças armadas, navios e armas de guerra, entre outras duras punições.

As conseqüências dessas duras reprimendas seriam um sentimento de vergonha nacional na Alemanha, de uma grave situação econômica e do surgimento de agitações nacionalistas.

A crise de 1929

Depois de terminado o mandato de Woodrow Wilson (do partido democrata), em 1921, os Estados Unidos experimentaram uma série de três presidentes do partido republicano. O liberalismo nos moldes pensados por Adam Smith era fortemente embraçado por políticos do partido republicano, especialmente no que diz respeito a não-intervenção do Estado no funcionamento da economia. O pensamento era de que o mercado podia regular-se sozinho e a intervenção estatal era prejudicial.

A crise econômica de 1929 ocorreu basicamente por haver uma superprodução de um lado e uma saturação do consumo de outro. Com empresas produzindo mais e mais sem ter a quem vender tantos produtos o prejuízo era certo. Mesmo assim a especulação financeira mantinha os preços das ações dessas empresas artificial e incrivelmente altos. Quando os investidores se deram conta disso já era tarde, houve uma corrida de acionistas tentando vender suas ações e recuperar o dinheiro, mas àquela altura, as ações antes milionárias eram folhas de papel sem nenhum valor.

A pior conseqüência para a população em geral (nos Estados Unidos e no mundo, exceto na União Soviética) foi o desemprego generalizado e a fome. Na Alemanha, à situação já penosa da economia com altas dívidas, sem colônias de onde extrair matéria-prima barata e sem poder investir na indústria armamentista, veio se juntar com a crise de 1929 o desemprego epidêmico e a hiperinflação. Para se ter uma idéia, o preço de uma fatia de pão que em 1918 era de 63 marcos, nos anos 1920 saltou para 201 bilhões de marcos! Dessa forma os radicais nacionalistas alemães que já contavam com o argumento da humilhação nacional, tinham agora o pretexto da grave crise socioeconômica para levar a frente seus projetos.

A ascensão do partido nazista
Com o fim da 1ª Guerra, foi instaurada a chamada República de Weimar, sistema de governo baseado no presidencialismo parlamentarista. Os governos contavam com forte desaprovação popular, em grande parte devida à incapacidade de ação provocada pelas restrições impostas pelo Tratado de Versalhes. Em 1919, foi fundado o partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães, partido nazista. Em 1923, os militantes do partido nazista tentaram um golpe fracassado, o Putsch de Munique, que redundou na prisão de vários militantes, dentre eles Adolf Hitler. Na prisão, Hitler escreve o livro Mein Kampf (Minha Luta), no qual assenta as bases ideológicas para as ações que seriam tomadas pelos nazistas nos anos a frente. Dentre elas se encontram a explicação pseudocientífica da pureza ariana, ou seja, os alemães eram herdeiros da raça pura ariana e deveriam manter essa pureza eliminando misturas com judeus (especialmente), ciganos, negros, deficientes físicos e mentais, etc. Também Hitler promove o totalitarismo, segundo o qual nada deve ocorrer à margem do Estado, as pessoas devem devotar a sua vida ao fortalecimento do Estado. Hitler se posiciona radicalmente contrário ao comunismo e embraça a teoria do espaço vital, isto é, o domínio de territórios indispensáveis para a segurança e prosperidade da raça ariana e do Estado alemão.

O discurso totalitário e nacionalista dos nazistas ganhava cada vez mais adeptos. Nas eleições de 1928, os nazistas contaram com 2,5% dos votos; em 1930, sob os efeitos da crise de 1929, a participação nazista no parlamento subiu para 18%; em 1932, já era de 37%. Com a maioria do parlamento, o presidente alemão não teve outra alternativa que não a de formar um governo com o partido nazista, nomeando Hitler para o cargo de chanceler (chefe de governo).

Dias após a posse de Hitler, os nazistas atearam fogo ao parlamento, atribuindo a culpa aos comunistas. Com essas e outras manobras políticas, mais a morte do presidente alemão, Hitler conquistou o controle absoluto do governo e adotou o título de führer.