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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Zizek: A utopia de Piketty

Por Slavoj Žižek*

Le Capital au XXIe siècle é um livro essencialmente utópico. Por que? Por conta de sua modéstia. Thomas Piketty percebe a tendência inerente do capitalismo à desigualdade social, de tal forma que a ameaça à democracia parte do interior da própria dinâmica capitalista. Até aí tudo bem, estamos de acordo. Ele vê o único ponto luminoso da história do capitalismo entre as décadas de 30 e de 60, quando essa tendência à desigualdade era controlada, com um Estado mais forte, Welfare State etc. Mas reconhece ainda que as condições para isso foram – e eis a trágica lição do livro – Holocausto, Segunda Guerra Mundial e crise. É como se estivesse implicitamente sugerindo que nossa única solução viria com uma nova guerra mundial, ou algo assim!
Mas por que digo que ele é utópico? De certa forma ele não está errado. A tentativa de superação do capitalismo no século XX de fato não funcionou. O problema é que ele então acaba implicitamente generalizando isso. Piketty aceita, como um bom keynesiano, que o capitalismo é, ao fim e ao cabo, o único jogo na praça; que todas as alternativas a ele acabaram em fiasco, e que portanto temos de preservá-lo. Ele é quase que uma versão social-democrata do Peter Mandelson, o príncipe escuro de Tony Blair que disse que na economia somos todos thatcheritas, e que tudo que podemos fazer é intervir no nível da distribuição, um pouco mais para a saúde, para a educação e assim por diante.
Thomas Piketty é utópico porque ele simplesmente propõe que o modo de produção permaneça o mesmo: vamos só mudar a distribuição implementando – e não há nada de muito original nessa ideia – impostos radicalmente mais altos.
Aqui começam os problemas. Veja, não digo que não devemos fazer isso, só insisto que fazer apenas isso não é possível. Essa é a utopia dele: que basicamente podemos ter o capitalismo de hoje, que como maquinaria permaneceria basicamente inalterado: "opa opa, quando você lucra bilhões, aqui estou eu, imposto, me dê 80% de sua fatura". Não acho que isso seja factível. Imagine um governo fazendo isso em nível mundial. E Piketty está ciente que isso deve ser feito globalmente, porque se fizer em um só país, o capital se desloca para outro lugar e assim por diante. Meu ponto é que se você conseguir imaginar uma organização mundial em que a medida proposta por Piketty pode efetivamente ser realizada, então os problemas já estão resolvidos. Então você já tem uma reorganização política total, você já tem um poder global que pode efetivamente controlar o capital. Ou seja: nós já vencemos!
Então acho que nesse sentido Piketty trapaça nas cartas: o verdadeiro problema é o de criar as condições para que sua medida aparentemente modesta seja atualizada. E é por isso que, volto a dizer, não sou contra ele, ótimo, vamos cobrar 80% de imposto dos capitalistas. O que estou dizendo é que se você fosse fazer isso, logo se daria conta de que isso levaria a mudanças subsequentes. Digo que é uma verdadeira utopia – e isso é o que Hegel queria dizer com pensamento abstrato: imaginar que você pode tomar uma medida apenas e nada mais muda. É claro que seria ótimo ter o capitalismo de hoje, com todas suas dinâmicas, e só mudar ele no nível da redistribuição – mas isso é que é utópico. Não se pode fazer isso pois uma mudança na redistribuição afetaria o modo de produção, e consequentemente a própria economia capitalista. Às vezes a utopia não é anti-pragmática. Às vezes ser falsamente modesto, ser um realista, é a maior utopia.
É como – e perdoem-me o paralelo esdrúxulo – um certo simpatizante nazista que disse basicamente: "Ok, Hitler está certo, a comunidade orgânica e tal, mas porque ele não se livra logo desse asqueroso antissemitismo". E houve uma forte tendência, inclusive dentre os judeus – e isso é realmente uma história curiosa –, houve uma minoria de judeus conservadores que inclusive se dirigiam a Hitler dessa maneira: "Pôxa, concordamos com você, unidade nacional e tal, mas por que você nos odeia tanto, queremos estar com você!" Isso é pensamento utópico. E é aqui que entra o velho conceito marxista de totalidade. Tudo muda se você abordar os fenômenos com a perspectiva da totalidade.
Extraído da conferência "Towards a Materialist Theory of Subjectivity", no Birbeck Institute for the Humanities.  A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O pânico em torno de Piketty

Por Paul Krugman

O novo livro do economista francês Thomas Piketty, "Capital in the Twenty-First Century" (o capital no Século XXI), é um autêntico fenômeno. Outros livros sobre economia já foram best-sellers, mas a contribuição de Piketty é séria, um estudo que transforma discursos, diferentemente da maior parte dos best-sellers. E os conservadores estão aterrorizados.
Assim, James Pethokoukis, do American Enterprise Institute, adverte no "National Review" que o trabalho de Piketty deve ser refutado, caso contrário, "vai se espalhar entre os intelectuais e remodelar a paisagem política e econômica na qual serão travadas todas as batalhas políticas futuras". Bem, boa sorte nessa empreitada.
O que é realmente impressionante neste debate até agora é que a direita parece incapaz de montar qualquer tipo de contra-ataque substantivo à tese de Piketty. Em vez disso, sua reação tem sido xingar -em particular, chamar Piketty de marxista, assim como qualquer um que considere a desigualdade de renda e riqueza uma questão importante.

Voltarei à questão dos xingamentos em um momento. Primeiro, vamos falar sobre por que o "Capital" está tendo um impacto tão grande.

Piketty não é o primeiro economista a salientar que estamos experimentando um forte aumento da desigualdade, ou até mesmo a enfatizar o contraste entre o lento crescimento da renda para a maioria da população e os rendimentos incríveis no topo. É verdade que Piketty e seus colegas agregaram uma profundidade histórica ao nosso conhecimento, demonstrando que realmente estamos vivendo em uma nova Era Dourada. Mas nós sabemos disso há algum tempo.

Não. O que é realmente novo sobre o "Capital" é a maneira como destrói o mais amado mito dos conservadores, a insistência de que estamos vivendo em uma meritocracia, na qual as grandes fortunas são conquistadas e merecidas.

Nas últimas duas décadas, a resposta conservadora às tentativas de tratar de forma política a questão das maiores rendas envolveu duas linhas de defesa: em primeiro lugar, a negação de que os ricos estão realmente se dando tão bem e o resto tão mal. E quando esta negação falha, eles alegam que essas rendas elevadas são uma recompensa justificada por serviços prestados. Segundo eles, não se deve chamá-las de 1% ou de ricos, mas sim de "geradores de emprego".

Mas como fazer essa defesa, se os ricos derivam grande parte de sua renda não do trabalho que eles fazem, mas dos ativos que possuem? E se as grandes fortunas, cada vez mais, não vêm de empreendimentos, e sim de heranças?

O que Piketty mostra é que estas não são questões menores. As sociedades ocidentais antes da Primeira Guerra Mundial de fato eram dominadas por uma oligarquia de riqueza herdada -e seu livro argumenta convincentemente de que estamos claramente voltando a esse estado.

Então o que os conversadores podem fazer, diante do medo que esse diagnóstico possa ser usado para justificar o aumento de impostos sobre os ricos? Podem tentar refutar Piketty de forma substantiva, mas, até agora, eu não vi nenhum sinal disso. Em seu lugar, como eu disse, há apenas xingamentos.

Isso não deveria ser surpreendente. Estive envolvido em debates sobre a desigualdade de renda por mais de duas décadas e nunca vi os "especialistas" conservadores conseguirem negar os números sem tropeçarem em seus próprios cadarços intelectuais. Ora, é quase como se os fatos fundamentalmente não estivessem do lado deles. Ao mesmo tempo, xingar de vermelho todo mundo que questione qualquer aspecto do dogma do livre mercado tem sido um procedimento padrão da direita, desde que pessoas como William F. Buckley tentaram impedir o ensino da economia keynesiana, não por prová-la errada, mas denunciando-a como "coletivista".

Ainda assim, tem sido incrível assistir os conservadores, um após o outro, denunciarem Piketty como marxista. Até mesmo Pethokoukis, que é mais sofisticado do que o resto, chama o "Capital" de uma obra de "marxismo light", o que só faz sentido se a mera menção à desigualdade de riqueza faça de você um marxista. (Talvez seja assim mesmo a visão deles: recentemente o ex-senador Rick Santorum denunciou o termo "classe média" como "conversa marxista", porque, veja bem, não temos classes nos Estados Unidos.)

E o "Wall Street Journal", em sua crítica ao livro, de forma muito previsível percorre todo esse percurso. De alguma forma, ele consegue comparar a defesa de Piketty da tributação progressiva como forma de limitar a concentração de riqueza -um remédio tão americano quanto a torta de maçã, defendido não apenas por economistas, mas também por políticos, inclusive Teddy Roosevelt- aos males do stalinismo. Isso é realmente o melhor que o "Wall Street Journal" consegue fazer? A resposta, aparentemente, é sim.

Agora, o fato de os apologistas dos oligarcas norte-americanos estarem evidentemente em falta de argumentos coerentes não significa que eles estejam politicamente em fuga. O dinheiro ainda fala -na verdade, em parte graças ao Supremo Tribunal de Roberts, fala mais alto do que nunca. Ainda assim, as ideias também importam, moldando a forma como falamos sobre a sociedade e, eventualmente, a forma como agimos. E o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias.

Tradutor: Deborah Weinberg