terça-feira, 9 de julho de 2013

Sobre os médicos de fora

Um dos pressupostos do neoliberalismo é a existência de uma taxa “natural” de desemprego, não necessariamente pequena, contra a qual a atuação dos governos seria infrutífera e principalmente indesejável.

Indesejável porque a existência de um exército de reserva de desempregados desesperados para conseguir qualquer trabalho por qualquer salário em quaisquer condições supostamente contribuiria para o aumento da produtividade e a diminuição das reclamações dos empregados por melhores salários e melhores condições de trabalho, uma vez que a ameaça do “se você não quer, tem quem queira” inviabilizaria a luta dos trabalhadores contra seus patrões.

Normalmente ninguém se preocupa quando se trata de faxineiras ou pedreiros ou porteiros, mas se a lógica se aplica a trabalhadores como, por exemplo, médicos, a situação é completamente diferente. Os jornais, telejornais, as redes sociais fervilham de protestos por todos os lados. Quer dizer: não me importa se a doméstica que limpa minha casa vem do Paraguai, de Cuba ou da Bolívia, mas o meu médico tem que ser brasileiro – de preferência formado no Sul ou no Sudeste.

Tentando ser direto, organizei os principais argumentos contrários à contratação de médicos estrangeiros que tenho ouvido e, em seguida, anotei alguns comentários.

1. Que garantias temos de que esses médicos estrangeiros são bem preparados?

Essa preocupação é válida, mas convém perguntar: que garantia você tem de que os nossos médicos são bem preparados? Talvez alguns tenham se esquecido, mas um exame realizado em 2012 pelo CREMESP reprovou 54% dos recém-formados em Medicina (leia mais); também é preciso trazer à memória dessas pessoas que são alarmantes os casos de erros médicos cometidos por profissionais brasileiros puro-sangue, o que, aliás, obrigou o Ministério da Saúde a adotar neste ano um Plano Nacional de Segurança do Paciente (leia mais), sendo digno de nota que um estudo sobre o tema da Fiocruz verificou que 67% desses casos são evitáveis.


2. Se os médicos recebessem um salário maior, eles trabalhariam em lugares carentes de profissionais

Sim, mas isso não vai mudar de hoje para amanhã.

Por outro lado, uma criança pode morrer de hoje para amanhã por falta de médico. É evidente que a contratação de médicos estrangeiros é uma medida paliativa, mas enquanto a solução definitiva não chega fazemos o quê?

Esse pensamento é da mesma natureza daqueles que criticam a instalação de sirenes em pontos de risco de deslizamento, porque isso não resolve o problema das habitações precárias. Daí, a população fica sem o mecanismo de alerta e sem a solução definitiva. Convenhamos, todos conhecemos com as coisas operam no Brasil.

3. A barreira do idioma atrapalha a relação médico-paciente

Ah, a relação médico-paciente! Todos que já precisamos ir a um hospital por causa de uma gripe sabemos como nossos médicos são atenciosos! Como eles conversam com a gente! O olho no olho, a atenção ao que dizemos! Ah...

Bom, acho que o sentido dessa ironia pode ser bem captado por todos e é suficiente para deixar claro que, em geral, os nossos médicos não dão a mínima para os seus pacientes.

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