Por Bob FernandesO Carnaval de Salvador acabou, decretou nosso colunista Antonio Risério num desabafo pré-momesco. (Leia
aqui).
Difícil entender como um Carnaval que arrasta multidões nas ruas por quase uma semana possa ter "acabado", mas quem freqüenta o Carnaval baiano sabe ao que Risério se refere.
Alegria engarrafada, industrializada, vendida para uns tantos se comparado ao todo, e em nome - e conta bancária - de muito poucos.
Alegria embalada em abadás e camarotes só para quem tem e pode, alegria que é, mantidas as óbvias dessemelhanças, um simulacro de outro carnavalzão paquidérmico, o do sambódromo carioca.
Um, como o outro, cada vez mais montado segundo a lógica repetitiva, pobre, chula e chulé de emissoras de televisão.
Não se desconhece o trabalho insano, o amor e dedicação idem, o esplendor e a beleza de escolas no sambódromo, mas o que se discute aqui é uma outra coisa: em nome de quem, e para quem, os megacarnavais? A propósito, leia aqui os colunistas
Marcio Alemão e
Ronaldo Correia de Brito.
O Carnaval do Rio de Janeiro, neste 2007, entrará para a história como aquele em que a Mangueira barrou Beth Carvalho e seus 36 anos de escola.
Carnaval, o de 2007, em que a verde e rosa negou duas fantasias para a família de Nelson, 82 anos de história, Sargento, enquanto o tráfico distribuía 20 fantasias - R$ 600 cada - para uma de suas alas, como informa Xico Vargas em sua Ponte Aérea RJ.
Beth Carvalho e Nelson Sargento postos para fora e, dentro, todos aqueles traseiros de ocasião; não se discutirá a excepcional, ou não, qualidade das ancas, as deste ou de muitos verões, nem os mililitros de silicone, mas como não pasmar ante a quantidade de árvores abatidas para que se possa ler e saber se a Grazi, a Juliana, a Preta, a Galistéia, ou qualquer uma do próximo verão tem... samba no pé?
O Rio de Janeiro largou na frente da Bahia na luta pelo desempacotamento da alegria no Carnaval. São centenas e centenas de blocos, uns filhotes dos outros e nascidos, quase todos, do encontro da escassez com o excesso.
Excesso de candidatos à alegria que tornam escassos o espaço e o único combustível não químico desta alegria, a música. A saída seria aumentar a quantidade de músicos, a potência do som, mas aí chega-se a um... trio elétrico.
Um trio elétrico, se uma prefeitura ou um estado não o alimentam diretamente torna-se uma máquina de engolir dinheiro, donde os blocos, os abadás de setecentos, oitocentos, mil, mil e quinhentos reais.
Trios, abadás e, como ninguém é de ferro, passe-se uma corda ao redor do bloco e enfie-se centenas de cordeiros, homens e mulheres - R$ 17 por dia, mais um lanche - para garantir a integridade; a da corda.
Quem não pode pagar? Que se esprema na calçada.
Um Carnaval para muitos, muitos cordeiros. E pouquíssimos lobos.
O Rio resiste. O Boi Tatá, que um dia saiu com uns 300, na manhã do domingo recebeu 6 mil candidatos à alegria, 35 graus à sombra. Filhote já com mais de um ano, a dissidência Boi Tolo escafedeu-se da Praça Quinze arrastando seus ainda 300.
Em Salvador, quem sabe uma esperança? Carlinhos Brown anunciou e lançou o Pipocão, um arrastão sem cordas. Por ora, apenas esperança. A Timbalada, do mesmo Brown, um dia foi um filhote sem corda, como também o foi o bloco Os Mascarados, de Margareth Menezes.
Ambos, um ou dois carnavais depois, devidamente empacotados.
Nas cinzas a Bahia chora e discute, como não poderia deixar de ser, seus mortos e feridos. Seis assassinatos, não necessariamente ligados ao circuito do Carnaval, 53 arrastões não momescos, 1.650 ocorrências...
- Não é muito, a se contar que temos mais de um milhão de pessoas nas ruas - diz um assessor carnavalesco.
A frase contém uma mentira que, pela repetição, tornou-se verdade. E que não descobre a ferida.
A mentira está no milhão. Uma cidade com 3 milhões de almas, incluídas as dos arredores, não tem, e não teria como ter, um milhão de humanos nas ruas; se a metade dessa hipotética multidão se decidisse por um xixi mais ou menos à mesma hora, a Bahia viveria um tsunami nas suas avenidas e ladeiras.
Tal milhão, chutado um dia nos dias das grandes e recentes mentiras oficiais, colou, ficou. Ponto.
A ferida? Estava na capa do jornal A Tarde nos últimos dias de dezembro passado:
- Salvador, a segunda cidade mais desigual do mundo.
Números oficiais, selo da ONU. À frente de Salvador no ranking mundial de desigualdade apenas algum ponto na Namíbia. Donde, com a camarotagem invadindo espaços públicos, a abadagem usurpando as avenidas e segregando ainda mais num Carnaval de cordeiros, seis assassinatos soam como se não fosse "muito".
PS: Em tempo. Isso pouco pode significar para quem, durante, bebeu um ou mais litros de algo com álcool, inalou Universitário, Loló, cal e assemelhados, para quem, em resumo, tenha ingerido qualquer aditivo em estado sólido, líquido ou gasoso. Pode não importar também para quem encontrou o grande amor, senão da vida pelo menos daquela tarde, noite, ou hora.
Quem vos escreve adianta: se deu bem, está no Carnaval desde as primeiras lembranças da infância, e adora estar.